- A minha realidade era jogar em uma cadeira de plástico, com muito calor e um ventilador...
Quem já assistiu a alguma entrevista de Alexandre "TitaN" Lima, uma das maiores revelações do League of Legends brasileiro na atualidade, certamente já ouviu essa frase. E quem visita o "berço" do jogador, no centro de Manaus, constata que o cenário condiz exatamente com a descrição traçada por ele. Foram inúmeros obstáculos superados para chegar ao posto de bicampeão nacional.

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A conexão limitada de internet era um dos principais fatores complicadores, já que afetava diretamente na jogabilidade diante dos adversários. Porém, a prática adquirida durante a infância, quando ainda jogava Ragnarok, um outro jogo online, o transformou na revelação que agora está na Coreia do Sul, para representar o Brasil no Mundial de LoL vestindo a camisa da KaBuM.
- Mesmo com a latência alta, ele não viu dificuldade, pela força de vontade, de ser um ciberatleta. Não importava estar numa cadeira de plastico ou de madeira, se o monitor era bom ou não. Ele não via dificuldades, como um jogador de futebol. Não teve tempo ruim - contou o pai de TitaN, Alexandre Oliveira, em entrevista exclusiva ao SporTV.com.
Pai e mãe de TitaN em Manaus — Foto: Rodrigo Faber
O apelido, aliás, o garoto herdou justamente do pai. Era ele quem usava o codinome TitaN nos games - inclusive no League of Legends. Alexandre é técnico de TI (Tecnologia da Informação) e fanático por computadores. Diversos membros da família gostam de jogos online: primos, sobrinhos...
O estilo de jogo do pai no LoL nunca foi semelhante ao de TitaN. Enquanto o filho é um atirador conhecido pelo estilo agressivo e pelas jogadas ousadas, o pai prefere jogar como suporte, de maneira bem mais resguardada.
- Eu sempre fui mais cauteloso, de estudar o adversário antes de tomar a iniciativa. Eu não tinha esse dom que ele tem - explica Alexandre.
A mãe, por outro lado, nunca foi grande entusiasta da tecnologia. Gelcilene Lima achava preocupante que o garoto ficasse tantas horas no computador, mas não demorou a perceber que se profissionalizar como ciberatleta era o sonho do filho. Decidiu não interferir nas decisões dele.
- Ele falava: "Mãe, é o que eu quero, só peço que você não empate meu sonho". Eu falava que não iria empatar. Eu sempre apoiei em tudo que ele fosse fazer e continuo apoiando. Ver meu filho chegando onde chegou, ganhando... Só espero que ele consiga mostrar ao Brasil tudo o que puder. Só desejo a felicidade do meu filho - afirmou.
Mas nem só de jogos online vivia TitaN. O garoto, vascaíno na infância, na contramão dos pais flamenguistas, gostava muito de jogar futebol e levava a mãe à loucura com os uniformes sujos na Escola Municipal Sagrado Coração de Jesus - colégio em frente à casa onde ele morou toda sua vida antes de se mudar para São Paulo.
- Ele saía direto da aula para jogar bola, sujava todo o uniforme. Ele só tinha dois, e eu até brigava com ele. Pensava que fosse ser um jogador de futebol, não de jogos eletrônicos - lembrou Gelcilene.
Escola onde TitaN estudou em Manaus — Foto: Rodrigo Faber
O pai se emociona toda vez que lembra da trajetória do garoto de 18 anos. O trabalho para conciliar o LoL aos estudos do filho, as conversas com ele e um dos momentos mais especiais da vida de Alexandre: a ligação que ele recebeu após o primeiro título brasileiro de TitaN, em abril deste ano.
- Eu me emociono. Quando ele ligou para mim, eu não estava esperando. Eu estava assistindo, muito nervoso, tinha um monte de gente comigo. Ele me ligou e disse: "Pai, eu dedico esse título a você". Esse é um momento que você guarda para o resto da vida - disse Alexandre, entre lágrimas.
- Vem um filme de toda a trajetória, sofrimento, falta de patrocínio, de recursos. Nós corremos atrás, e ele nunca desistiu. Sempre teve a força de querer ser profissional, e isso me incentivou muito a apoiá-lo - completou.
Quadra onde TitaN jogava futebol na infância — Foto: Rodrigo Faber
Antes mesmo de sair de Manaus, TitaN já era conhecido na cidade. Entre os jogadores de LoL na capital amazonense, o garoto se tornou o alvo a ser batido. O engenheiro Caio Polari, amigo de infância, lembra bem o clima dos campeonatos quando TitaN estava no páreo
- Ele sempre foi diferenciado. O pessoal nos campeonatos regionais brigava para matar ele. Quando conseguiam, era gritaria, parecia gol do Brasil. Era desse nível. Ele era muito bom, o cara a ser batido. Quando viam que o TitaN ia jogar, já falavam: "O time dele vai ganhar" - contou.
A partir da próxima semana, amigos e familiares estarão unidos para torcer por TitaN no Mundial de LoL. A KaBuM estreia na competição diante da americana Cloud9, na próxima terça-feira, às 5h (horário de Brasília), com transmissão ao vivo do SporTV.com. Para Alexandre, o orgulho será ainda maior.
- É difícil educar uma criança. Você tem de ter o estudo, isso ninguém tira de você. Mas também tem de conciliar com os desejos e sonhos. Ele queria ser mais do que só um jogador, queria ser reconhecido. Os pais que colocam um barreira não sabem o quanto é gratificante ver o filho virar profissional e ser reconhecido - disse.