Jimmy Harrison: o técnico da CNB que mudou a estratégia de ...

Numa etapa de Campeonato Brasileiro de League of Legends (CBLoL) em que o meta do jogo foi mais discutido que o desempenho das participantes, um estrangeiro se destacou pela ousadia. Trata-se de Jimmy Harrison, o comandante da CNB e-Sports Club. O norte-americano fez o impensável: aproveitou a situação e a usou para benefício do time. O técnico ousou, ousou muito.

  • Rubro-Negro avança na competição para enfrentar a KaBuM em Porto Alegre.

  • Blumers venceram a IDM Gaming por 2 a 0 na segunda semana do campeonato.

  • Em vídeo, Rakin afirma que decisão foi tomada junto a organização e que continuará trabalhando com o time de League of Legends fora do palco do CBLoL

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Jimmy foi duramente criticado pela torcida Blumer ao sacar o atirador Pablo "pbO" Yuri da formação titular na reta final, foi atacado pelos adversários que diziam que a CNB era previsível, mas também foi quem criou o "autofill" no cenário brasileiro. Mesmo não sendo unanimidade para alguns e ter levado pedradas de outros, o treinador norte-americano foi tão responsável pela terceira colocação da CNB quanto os jogadores.

Em entrevista ao ESPN Esports Brasil, Jimmy contou como foi parar nos "Canibais", falou sobre o período em que está no Brasil e também sobre o futuro - treinador já está livre para ouvir propostas de outras equipes.

Antes de ser contratado pela CNB, Jimmy fez parte da comissão técnica da Big Gods Jackals, equipe formada pela organização brasileira Big Gods que competiu nos Estados Unidos em 2017 com o intuito de chegar a liga profissional norte-americana (LCS NA). Mas isso acabou não acontecendo e o time foi dissolvido. Nessa situação, o profissional precisou procurar uma nova oportunidade para continuar nos esports.

"Depois que a Big Gods perdeu na semifinal do Challenger Series [Circuito Desafiante daquela região], eu estava procurando por um novo emprego", conta Jimmy. De acordo com o profissional, "quando estava conversando com alguns times, o Baiano me mandou uma mensagem perguntando se eu poderia ajudar o novo time dele". "Me ofereceram um período de testes na CNB como assistente remoto. Depois de uma semana trabalhando, o Baiano me perguntou o que seria necessário para eu me mudar para o Brasil e ser o treinador", revela.

Jimmy assumiu então o lugar de Pedro "Gafone" Ramos, que por sua vez tinha recebido a "bucha" de não deixar o time ser rebaixado para a 2ª divisão brasileira. A CNB precisava se reconstruir. Foi o que a organização fez quando contratou o topo Leonardo "Robo" Souza, o caçador Gabriel "Turtle" Peixoto, o meio Rafael "Rakin" Knittel e o suporte Gustavo "Baiano" Gomes. O treinador norte-americano veio nesse "pacote".

Ao ser questionado sobre como veio parar no Brasil, Jimmy conta que "eu nunca ouvi a história completa do porquê o outro treinador saiu do time". O norte-americano se refere a Joseph "Strong" Edwards, que foi o comandante da CNB em boa parte da segunda etapa do CBLoL 2017, mas por ser inflexível acabou sendo trocado por Gafone. "Tive a liberdade de treiná-los como eu queria e tudo aconteceu rápido. Um dia eu estava trabalhando com o time no Skype e no outro eu estava no palco no Brasil", revela

Isso me assustou já que, para um norte-americano largar tudo e vir trabalhar no Brasil, deve ser um pouco de loucura. Jimmy conta que, "realisticamente, a vida de um profissional de esports é a mesma em todo lugar. "Eu sabia que a maior parte do meu tempo seria gasto treinando o time na gaming house. Sou uma pessoa racional, então eu tinha algumas preocupações básicas, mas nunca tive medo de tomar essa decisão", afirma o treinador.

Jimmy revela que recebeu apoio da família, que, segundo o treinador, são os principais apoiadores: "minha mãe e minha irmã me apoiam incondicionalmente, e elas são as que mais torcem por mim. Elas querem me ver feliz e sabiam que minha vinda ao Brasil era algo que eu tinha que fazer para seguir meus sonhos".

REERGUENDO OS REIS

O norte-americano aterrissou no Brasil já com o CBLoL em andamento, na Rodada 2 da Fase de Classificação da primeira etapa, e também com uma surpresa. Ao chegar no País, o técnico encarou um time que não desencantava. Após duas derrotas seguidas o comandante se viu na necessidade de improvisar. A pedido do próprio jogador, Rakin foi para a reserva e, com isso, Jimmy moveu Robo da rota superior para a do meio. Tudo voltaria ao normal duas semanas depois.

Tendo em vista que muito tempo se passou desde a disputa da primeira etapa, perguntei a Jimmy se ele acha a quarta colocação obtida naquela edição poderia ser considerado como algo bom para a equipe. "Acho que a palavra 'boa' é subjetiva. Tínhamos uma nova escalação com baixas expectativas por parte da comunidade. Apesar da comunidade achar que seríamos rebaixados, eu estava confiante de que meu time podia ganhar se melhorássemos da maneira correta", revela.

"Minha reação inicial é de que não foi uma boa etapa porque eu esperava mais de mim. Eu esperava ganhar. Porém, quando olho para trás e penso na progressão, posso ver que, na verdade, a etapa foi boa porque ganhamos uma experiência valiosa. Não acredito que o sucesso que o time teve na segunda etapa seria possível sem as falhas na primeira. Precisávamos falhar para ver do que realmente somos feitos" Jimmy Harrison, treinador da CNB e-Sports Club

Essa resposta me fez pensar: realmente, a formação não era nem de longe a pior, mas também não estava no que poderíamos chamar de "elite do LoL nacional". "Durante a primeira etapa, eu já havia mostrado que podia treinar com uma escalação grande e jogadores substitutos com base no que o time precisava", afirma Jimmy.

"Chegando à segunda etapa, minha escalação aumentou para nove jogadores, o que me deu muita flexibilidade. Acredito que o patch do início da etapa me permitiu mostrar minha criatividade como técnico. Vi que os atiradores tradicionais podiam ser punidos, e sabia que eu poderia transformar o tamanho da minha escalação em uma grande vantagem competitiva", revela o treinador.

A estratégia deu certo e, para quem via de fora, parecia que a CNB estava imparável. Muito disso vinha da confiança que o técnico passava para o elenco. "No fim, os jogadores tiveram que confiar em mim. Inicialmente, parece um risco você jogar fora da sua posição principal, ou não jogar com um atirador. A confiança foi um resultado da progressão que fizemos na primeira etapa", aponta Jimmy

O REVÉS

Entretanto, veio a pausa do CBLoL, a mesma que todas as regiões sofrem por conta do Rift Rivals. Foram duas semanas sem a principal competição do País, duas semanas que pareceram uma eternidade. Foi o que a CNB sentiu.

Pela quinta rodada, a CNB encarou o Flamengo e sofreu a primeira derrota naquela etapa. Na semana seguinte foi vez do time perder para a KaBuM - derrota está muito sentida. Foi nesse momento que começaram a aparecer os primeiros comentários de que a estratégia do "autofill" não estava funcionando. Muitos analistas e críticos começaram a questionar a falta que pbO estava fazendo ao time, e que a não presença de um "atirador de ofício" era o principal fator que estava prejudicando os Blumers.

"Esses comentários me fazem rir porque são simplesmente suposições", comenta Jimmy. "Eu tinha dois atiradores em minha escalação e com os quais treinamos. Eu também tinha dois jogadores de rotas solo que, previamente, jogaram como atiradores, com o Baiano em outros times. Enquanto a posição de atirador foi compensada por sofrer nos patches anteriores, outros times pelo mundo ainda estavam vendo o jogo como nós. A Fnatic e a Griffin foram capazes de utilizar composições com e sem atiradores mesmo depois dos patches que ajudaram a posição", aponta.

Mesmo assim questionei sobre a cobrança do público e da crítica feita pelos especialistas sobre pbO não estar no palco. Mas esse tipo de pressão não afetou o técnico: "se um treinador tomar decisões estratégicas baseadas na pressão dos fãs, ele não deveria ser um técnico. Quero treinar jogadores que sempre querem jogar em alto nível, que anseiam por situações de alta pressão. Claro que todos os meus jogadores querem jogar, mas meu trabalho como head coach é tomar decisões que eu acredito darem as melhores chances de ganharmos a cada semana", afirma.

Jimmy foi um dos motivos das duas boas campanhas da CNB no CBLoL deste ano Riot Games

Ainda sobre a estratégia do "autofill", muitos jogadores entrevistados pelo ESPN Esports Brasil durante a segunda etapa do CBLoL falaram que o time que tem Ronaldo Fenômeno de sócio era fácil de se ler.

"Acho que um técnico ou time bom podia ver nossas fraquezas, mas acredito que nunca foi fácil se preparar para o que podíamos fazer no draft. Éramos o time mais difícil de se preparar contra pois simplesmente não sabiam como iríamos jogar. Não acredito por um segundo que a Keyd esperava nosso draft no primeiro jogo contra eles na escalada", afirma Jimmy.

"Nenhum time no Brasil havia demonstrado a habilidade de mudar jogadores de posições em uma única série. Mesmo se você soubesse o que esperar no primeiro jogo, não poderia estar completamente certo do que aconteceria depois de uma derrota ou vitória nele. Para mim, todo jogo de uma melhor de cinco é preparado e antecipado", completou o treinador.

Muito do sucesso da CNB na competição e da estratégia adotada pela equipe também é resultado da facilidade dos jogadores de se adaptarem ao estilo proposto. Mas o comandante Blumer teve uma forcinha de Robo, que estava em uma fase muito boa, talvez a melhor na carreira do topo "É definitivamente importante ter um jogador ao qual os times precisam prestar atenção a todo momento, porque o Robo realmente tem o potencial de controlar o jogo", fala o treinador sobre o topo. Jimmy, contudo, reconhece que o jogador não "carregou o time": "independentemente do quão bom ele é, ele ainda precisa de um time em sua volta para criar pressão no mapa e dar espaço. O League of Legends não é mais um jogo no qual um jogador estrela consegue garantir um campeonato sozinho. O Robo trouxe mais ao time do que vocês viram no palco. Muito da personalidade da CNB vem de como ele aborda o jogo. Qualquer escalação que o Robo estiver tem a chance de vencer, isso é certo".

No fim das contas, a CNB conseguiu se classificar para a Escalada. Jimmy e seus comandados conseguiram superar a Vivo Keyd em uma série onde tanto os Guerreiros, quanto os Reis erraram demais. Foi novamente diante do Flamengo que o time recebeu um golpe forte e acabou ficando em terceiro lugar na segunda etapa do CBLoL. Tudo graças à ideia do "autofill" que foi menosprezada por muitos, mas serviu ao propósito de levar os Blumers ao "pódio".

Inclusive, essa estratégia do "autofill" foi tão inusitada que não existia uma regra definida sobre esse tema em nenhuma liga. "Algumas regras do CBLoL terão que mudar por conta de como abordei o jogo nesta etapa. Um exemplo: em cada série, o time inimigo informa a escolha de lado para o primeiro jogo, e então você informa sua escalação. Contra o Flamengo, foi a primeira vez que a Riot não nos informou o lado que o time escolheu para o primeiro jogo. Normalmente, isso não seria um problema se você tivesse cinco jogadores que iriam jogar todas as partidas", explica.

Até mesmo o Prêmio CBLoL, que neste ano será realizado no Museu de Arte de São Paulo (MASP), precisará se adaptar ao estilo do Jimmy. "A outra mudança tem a ver com o Prêmio CBLoL. Acredito que você precisa ter 60% de jogos ou algo assim em uma posição para receber a indicação para 'melhor topo, meio, caçador etc. Bom, nossa constante troca de jogadores vai deixar isso mais difícil.', aponta.

Jimmy entende que fez parte de uma mudança no sistema de posicionamento e escalação de um time de League of Legends e dá o devido valor para as equipes que seguiram sua deixa. "Acho que o fato da Griffin ter chegado à final da LCK fazendo o que fizemos, a Fnatic sendo a melhor na Europa e a Echo Fox tendo sucesso utilizando a mesma abordagem que a nossa diz muito, considerando que fomos o primeiro time a fazer mudanças", analisa o técnico

FUTURO

Sobre o futuro, Jimmy é bem claro: está ouvindo propostas. "Meu contrato com a CNB acaba em setembro. Eu pedi permissão à organização para conversar com outros times com o intuito de definir meu valor de mercado, e eles concordaram".

Sobre qual região ele buscaria, Jimmy foi mais direto: "sou o tipo de pessoa que está constantemente pensando sobre o que eu preciso aprender ou melhorar para vencer. Desde que a temporada acabou, eu tenho pensado sobre as mudanças que eu gostaria de ver e estou confiante de que sei do que preciso de uma organização para vencer".

"Essa vai ser minha primeira experiência como free agent, então não sei quais são minhas expectativas", conta o treinador. "Se eu acredito na escalação, na gerência, no ambiente, e o objetivo da organização for o mesmo que o meu, consigo me ver em qualquer região", completa.

Isso, no entanto, não descarta o fato de que Jimmy possa continuar comandando os Reis. "Sempre há uma chance de eu voltar para a CNB – só vai depender das ofertas que eu receber. Não me preocupo com fama ou seguidores no Twitter. Só quero ser feliz e ganhar", decreta o treinador que, à sua forma, mesmo sem vencer o campeonato, já provou que tem um grande olhar estratégico e que pode mudar a forma que jogamos League of Legends.